Endoscopia digestiva: o que significam gastrite, esofagite e esôfago de Barrett no laudo?

Receber o resultado de endoscopia digestiva alta com termos como gastrite, esofagite ou esôfago de Barrett é muito comum. No entanto, na maioria das vezes, esses diagnósticos causam dúvidas, pois o laudo traz linguagem técnica e, sem contexto, ela dificilmente faz sentido para quem não é da área da saúde.

Entender o significado de gastrite, esofagite e esôfago de Barrett ajuda o paciente a chegar à consulta com as perguntas certas, além de gerar tranquilidade. Veja abaixo o significado de cada diagnóstico, com explicação do laudo de endoscopia para os achados e quais fatores exigem atenção:

Alterações na endoscopia: o que fazer ao receber o laudo

Apresentar alterações na endoscopia não significa que o paciente tenha algo grave em curso. Esse termo significa que o exame cumpriu o papel de identificar o que merece atenção – e, com base nesses resultados, médicos podem encaminhar o paciente para o melhor tratamento.

Após receber esses resultados, o ideal é buscar ou retornar ao gastroenterologista para contextualizar os achados e entender o quadro clínico completo. Quando se trata de endoscopia, inclusive, algumas condições são mais comuns de aparecer. É o caso de gastrite, esofagite e esôfago de Barrett, que explico abaixo:

Gastrite no laudo da endoscopia

A gastrite é um dos achados mais frequentes em exames de endoscopia digestiva alta. O termo “gastrite” indica que há sinais de inflamação no estômago, que pode ser leve, moderada ou intensa. O laudo também costuma informar a localização dela (antro, corpo ou fundo gástrico), bem como características visuais.

Os termos fundo, corpo e antro gástrico que aparecem no laudo da endoscopia referem-se à região afetada dentro do estômago.

Por que a gastrite acontece

Uma das causas mais comuns da gastrite é a infecção pela bactéria Helicobacter pylori (H. pylori), presente em uma parcela significativa da população e responsável, inclusive, por casos de gastrite crônica.

Além disso, outras causas podem incluir:

  • Uso contínuo de determinados remédios (como anti-inflamatórios)
  • Consumo frequente de álcool
  • Doenças autoimunes
  • Dieta rica em alimentos ácidos
  • Estresse

Gastrite é grave?

Na maior parte dos casos, a gastrite costuma ser resolvida com tratamento medicamentoso, além de ajustes na rotina e dieta.

No entanto, quando seus sintomas não são controlados ou não há intenção de tratamento, a gastrite pode evoluir para quadros mais graves. Entre eles, é possível destacar úlceras e condições que aumentam o risco de câncer.

Tratamento

Tratamento da gastrite deve ser direcionado à sua causa. Quando há infecção por Helicobacter pylori, está indicada a terapia de erradicação com associação de antibióticos e inibidor de bomba de prótons (IBP), conforme esquemas recomendados.

Nos casos não relacionados à bactéria, o manejo inclui o uso de IBPs ou bloqueadores de ácido para cicatrização da mucosa, além da suspensão de fatores irritativos, como anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), quando possível.

Medidas complementares são importantes, como cessar o tabagismo, moderar o consumo de álcool e ajustar a alimentação conforme tolerância individual. Estratégias de controle do estresse podem ajudar nos sintomas, embora não atuem diretamente na causa da inflamação.

Esofagite e refluxo no laudo da endoscopia 

Quando termos como esofagite ou refluxo aparecem no laudo da endoscopia, eles indicam que houve algum grau de agressão à mucosa do esôfago — geralmente relacionada ao retorno do conteúdo ácido do estômago.

A esofagite corresponde à inflamação dessa mucosa, sendo mais frequentemente causada pela doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). No entanto, outras condições também podem estar envolvidas, como a esofagite eosinofílica, infecções ou até lesões provocadas por medicamentos.

Na prática, o laudo endoscópico ajuda a confirmar uma suspeita clínica já existente. Sintomas como queimação (azia), regurgitação ácida ou dificuldade para engolir costumam estar presentes e orientam a investigação.

Por que a esofagite acontece? 

O esôfago não tem a mesma proteção que o estômago contra o ácido gástrico. Sendo assim, quando a válvula entre o esôfago e o estômago não funciona corretamente, o conteúdo ácido retorna e agride a mucosa esofágica repetidamente. Com o tempo, essa agressão gera inflamação, erosões e, em casos mais graves, úlcera.

Nesse contexto, são considerados fatores de risco:

  • Obesidade
  • Tabagismo
  • Alimentação inadequada
  • Uso de alguns medicamentos

Esofagite é grave? 

A gravidade da esofagite depende do grau. No laudo, o endoscopista classifica a esofagite de A (erosões pequenas e isoladas) a D (erosões extensas que comprometem grande parte da mucosa).

Todos os graus respondem bem ao tratamento clínico, que inclui mudanças no estilo de vida e medicamentos. Sendo que os graus C e D exigem acompanhamento mais rigoroso e, em alguns casos, investigação adicional para descartar complicações.

Tratamento 

Em graus mais leves, medicamentos ajudam a reduzir a produção de ácido pelo estômago, reduzindo o refluxo e ajudando a mucosa do esôfago a se recuperar. Além disso, mudanças no estilo de vida também tendem a ajudar muito. Entre elas, é possível citar:

  • Evitar refeições grandes próximos ao horário de dormir
  • Elevar a cabeceira da cama
  • Controle de peso
  • Evitar o consumo de álcool e cessar o tabagismo

Já em casos mais graves, o monitoramento é essencial para entender a necessidade de realizar a cirurgia para refluxo. Nesse procedimento, o especialista reforça o esfíncter esofagiano (“válvula” que previne o retorno do conteúdo do estômago), sanando o refluxo e, assim, melhorando a esofagite.

O que significa esôfago de Barrett no laudo da endoscopia? 

Entre essas condições, o esôfago de Barrett é o achado que merece maior atenção. Trata-se de uma metaplasia, ou seja, uma alteração em que as células normais do esôfago (escamosas) são substituídas por células com características intestinais.

No laudo, é comum a descrição de “segmento de Barrett” acompanhado de uma medida em centímetros. Esse dado indica a extensão da área acometida e é fundamental para definir o risco e o plano de acompanhamento.

Por que o esôfago de Barrett acontece? 

A principal causa é a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) de longa duração, especialmente quando não tratada adequadamente.

Alguns fatores aumentam o risco de desenvolver Barrett:

  • Refluxo crônico (mais de 5 anos)
  • Sexo masculino
  • Idade acima de 50 anos
  • Obesidade abdominal
  • Tabagismo

A exposição contínua do esôfago ao ácido leva à adaptação das células, resultando nessa mudança do revestimento.

Esôfago de Barrett é grave? 

O esôfago de Barrett é considerado uma condição pré-maligna, pois está associado a um risco aumentado de evolução para câncer de esôfago.

No entanto, isso não significa que todos os pacientes irão desenvolver câncer. Na maioria dos casos, trata-se de uma condição que pode ser acompanhada e tratada com segurança, principalmente quando diagnosticada precocemente.

O ponto mais importante é identificar se há presença de displasia — alterações celulares que indicam maior risco de progressão para lesões malignas. Nesses casos, o tratamento passa a ser mais ativo e direcionado.

Tratamento 

O manejo do esôfago de Barrett envolve dois pilares: controle do refluxo e tratamento das alterações da mucosa.

O controle do refluxo pode incluir mudanças de hábitos, uso de medicamentos (como inibidores de bomba de prótons) e, em alguns casos, tratamento cirúrgico para reforço da barreira antirrefluxo.

Já o acompanhamento do Barrett é feito por meio de endoscopias periódicas e biópsias, com intervalos definidos conforme o risco individual.

Quando há displasia de alto grau ou lesões iniciais, o tratamento endoscópico passa a ser indicado. Entre as opções, destaca-se a Dissecção Endoscópica da Submucosa (ESD).

A ESD é uma técnica avançada que permite a remoção completa da lesão em uma única peça (ressecção R0), mesmo em áreas maiores ou mais complexas. Isso garante uma avaliação mais precisa do tecido e reduz o risco de recidiva quando comparado à mucosectomia (EMR), que frequentemente remove a lesão em fragmentos.

Por ser um procedimento minimamente invasivo, realizado por endoscopia, permite tratar lesões iniciais sem necessidade de cirurgia, preservando o órgão e promovendo recuperação mais rápida.

A escolha da melhor abordagem depende de uma avaliação individualizada, considerando o grau da lesão, sua extensão e as condições do paciente — motivo pelo qual o acompanhamento com um especialista em endoscopia avançada é fundamental.

Mais sobre o laudo de gastrite, esofagite e esôfago de Barrett

Na maioria dos casos, não. A gastrite é um achado bem comum e costuma responder bem ao tratamento na maior parte dos casos. Nesses quadros, o que costuma definir a gravidade é a causa da doença, que pode ser ocasionada por maus hábitos alimentares e estresse (geralmente leve) ou pela presença de H. pylori e outras alterações na endoscopia (mais desafiador).

Na maioria dos casos, sim. Isso porque a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) permite que ácido do conteúdo estomacal faça contato com a mucosa do esôfago, algo que, com o tempo, provoca a erosão desse tecido. Essa erosão é o que leva à inflamação que caracteriza a esofagite.

O esôfago de Barrett não é câncer, mas sim uma condição considerada pré-maligna. Isso significa que sua existência aumenta o risco de se desenvolver câncer no esôfago devido às alterações que as células desse órgão sofreram.